Uma figura marcante da sociedade portuguesa
A escritora, bióloga e professora universitária Clara Pinto Correia, de 65 anos, foi encontrada sem vida na sua residência em Estremoz, no Alentejo, na manhã desta terça-feira. A autora, que ao longo das últimas décadas marcou a cultura e a ciência em Portugal, vivia afastada das luzes da ribalta.
Descoberta pela empregada doméstica
Foi a funcionária doméstica que, ao chegar para trabalhar, deu o alerta às autoridades. Quando os bombeiros chegaram ao local, a escritora já tinha falecido. A PSP esteve na habitação e tomou conta da ocorrência.
Mensagem de pesar do Presidente da República
No site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma nota de condolências dirigida à família e a todos os que admiravam a escritora. O Presidente recordou Clara Pinto Correia pela "alegria de viver", pela "inteligência" e pelo "brilho" que deixavam marca em tudo o que fazia. Sublinhou ainda que a autora nunca deixava ninguém indiferente, razão pela qual a sua perda é sentida de forma ampla.
Confirmada também pela editora Exclamação
A editora que publicou o seu último livro, Antares, lançado em junho do ano anterior, confirmou igualmente a notícia da sua morte.
Afastamento da vida pública e dificuldades pessoais
Nos últimos anos, Clara Pinto Correia tinha-se retirado da esfera pública e mudado para Estremoz. Num testemunho emotivo dado à revista Sábado, em janeiro, relatou um período difícil marcado pelo desemprego, dificuldades financeiras e mesmo uma ordem de despejo na casa onde vivia há décadas, perto de Colares.
Segundo descreveu, chegou a sentir olhares de desconfiança nas filas da Segurança Social, revelando uma fase de grande vulnerabilidade após uma vida de forte exposição pública.
A polémica que marcou 2003
A carreira da escritora não esteve isenta de controvérsias. Em 2003, foi acusada de plágio numa crónica publicada na revista Visão, que reproduzia de forma quase integral um texto de David Remnick para a The New Yorker sobre Václav Havel. O caso levou ao seu afastamento da revista, à suspensão de um livro prestes a sair e a críticas intensas por parte do meio literário.
Clara Pinto Correia afirmou anos mais tarde que, estando na altura nos Estados Unidos e sem acesso a ferramentas como o Google, foi surpreendida pela acusação e aconselhada pela mãe a manter silêncio enquanto a polémica crescia.
Carreira académica e literária
Licenciada em Biologia pela Universidade de Lisboa e doutorada pela Universidade do Porto, destacou-se na área da Embriologia, tendo trabalhado no Instituto Gulbenkian de Ciência e em instituições científicas norte-americanas.
Estreou-se na literatura em 1983 com Ponto pé de Flor, mas foi o romance "Adeus Princesa" que lhe trouxe maior reconhecimento, dando mesmo origem a uma adaptação cinematográfica.
Fotografias controversas e liberdade artística
Em 2010, aceitou participar na exposição “Sexpressions”, que mostrava momentos íntimos seus com o marido, Pedro Palma. A autora explicou que nunca teve intenção de provocar, mas acabou por ser surpreendida pela polémica levantada pelas imagens, que muitos criticaram sem conhecer o contexto privado em que foram registadas.
Família ligada às artes e à comunicação
Filha dos médicos José Manuel Pinto Correia e Maria Adelaide da Cunha e Vasconcelos de Carvalho Amado, era irmã da jornalista Margarida Pinto Correia. Além do trabalho científico e literário, foi também cronista, apresentadora e chegou a participar como atriz no filme Kiss Me (2004), de António Cunha Telles.
Uma vida marcada pela ciência, pela escrita e pela coragem
Clara Pinto Correia deixa um legado vasto e multifacetado: investigadora, professora, escritora, comunicadora e defensora de uma visão livre e descomplexada da vida. O seu percurso, por vezes tumultuoso, permanece como testemunho de uma personalidade intensa, criativa e profundamente humana.

Que seja muito iluminada para que sua alma tenha paz porque todos sabemos que grandes figuras só tem o reconhecimento devido após a sua morte....
ResponderEliminarPorque já não pode ofuscar ninguém...
Merecia ter em vida tudo para poder desfrutar do seu talento...
Mas não preferem retirar as ferramentas a quem tem capacidade de elevar a cultura e todo um país que não colaborou para a educação do mesmo...
Obrigado pela teu desempenho em vida.